Fonte: www.tdvadilho.com

“Resenhando” #4: Drácula de Bram Stoker

Resenhando e Recomendações

 |  Livros

 |  18 minutos

Capa do livro Drácula de Bram Stoker
Montanhas-russas, Racionais, Crepúsculo, Kid Vampire e mais. Calma! Tudo vai fazer sentido (espero)

De todas as criaturas mitológicas que conheço, vampiros sempre foram as que mais me incomodaram. Não porque me davam (ou dão) medo — ainda que, de noite, numa rua sem saída, de frente para um vampiro… eu me cagaria… —, mas porque vampiros têm uma ligação direta com aquilo que o ser humano tem de mais repulsivo: o sangue.

É. Você leu direito. O sangue.

Veja, depois de ter passado toda a vida praticamente desmaiando ao ver sangue, às vezes quase desmaiando só de ouvir falar sobre sangue — aulas de biologia do terceiro ano, ciclo sanguíneo, pff… tortura… tortura, tortura, tortura… — resolvi declarar guerra à essa coisa vermelha horrível, e passar a pregar a palavra de que o ser humano não deveria compactuar com sangue.

Venho pregando essa palavra há anos, e negando completamente a existência do meu, então, pegar um livro em que as coisas giram em torno dessa inhaca, especialmente dessa inhaca saindo do pescoço, que é o segundo lugar que mais dá aflição, foi uma grande surpresa.

Agora que já preguei a palavra, e você pode tomar a decisão correta de me seguir, podemos partir para o “Resenhando” do mais famoso livro de vampiros:

O famoso Drácula de Bram Stocker!

~ Tan, tan, taannnn [música de tensão]

Começo dizendo que um dos meus jeitos favoritos de olhar para histórias é enxergá-las como montanhas-russas.

[Voz dos defensores clássicos de clássicos]

Por conta de Tolstói e Dostoiévski, né?!

[Minha voz]

Não. Nada contra, mas… calma, dá um tempinho da religião.

Talvez uns três tenham fechado a página agora. Hehe. Fazer o quê.

Gosto de enxergá-las como montanhas-russas porque acredito que aquilo que faz uma montanha-russa ser marcante é o ritmo que ela impõe no carrinho, assim como o que faz uma história ser marcante é o ritmo pelo qual ela leva os leitores. E, nesse sentido, vejo Drácula como uma montanha-russa excepcional nas duas primeiras partes do livro, e uma montanha-russa infantil (guarde essa palavra) na parte final.

Espera!

O quê?

Ritmo me lembra muito mais música do que montanha-russa. Não seria melhor uma comparação entre livros e músicas, então?

Provavelmente. De preferência com rap, eu diria. Mas aí eu não teria como ter feito a piadinha com os defensores clássicos de clássicos, não é? Mas tudo bem, que tal tentarmos os dois, então? Pode ser? Boa! “Saúde, plim!” (Dá ponte pra cá, Racionais), e vamos a continuação.

Parte 1: Jonathan no Castelo

Se fosse para colocar em uma palavra (e uma exclamação), diria que essa parte é: excepcional!

A descrição do cenário gótico, o suspense e peculiaridades nas ações do Conde Drácula e as dúvidas e hipóteses de Jonathan criam toda uma atmosfera que, de fato, envolve o leitor, o coloca dentro do castelo e estimula todo um imaginário fantástico.

Acredito que, por si só, Jonathan no Castelo tenha sido responsável por criar a maior parte do imaginário sobre a cultura dos Vampiros Fantásticos e Onde Habitam, inclusive sobre o desenvolvimento de outros Dráculas, como esse que, se você conhece, conhece:

Count Draynor, do jogo OSRS

E, se não conhece, te apresento Old School Runescape. Cuidado, vicia.

Na época em que ninguém sabia da relação entre Drácula e vampiros, ler a primeira parte do livro deve ter sido uma experiência única! O que não quer dizer nada, porque toda experiência é única, não? Mas, nesse ponto, o que vale é a expressão.

P.S [Parte com Spoiler, clique para liberar]

Achei incrível quando Jonathan falou da sua suspeita sobre o Conde ser o próprio condutor da charrete. Foi o momento de soltar um “eita…!” porque eu estava tão concentrado em ver o clima gótico no meu imaginário que não tinha nem sequer cogitado essa possibilidade. Enfim, uma ótima sacada e um ótimo timing do autor.

Parte 2: A História de Lucy

A segunda parte começa lenta, com um número bem razoável de trechos voltados para a expressão daqueles amores e preocupações vitorianas que as pessoas tendem a amar intensamente ou odiar na mesma intensidade. Particularmente, sou do time que desgosta, porém, acredito que o autor foi bem feliz no controle do ritmo, porque, no exato momento em que comecei a me cansar e pensar em dormir, percebi que o autor tinha me colocado no topo da montanha e o momento seguinte seria seguido por uma queda louca que, se dependesse da mãe da Lucy, seria loucamente livre.

Fazia muito tempo que um livro conseguia ganhar a batalha contra o meu sono e, da chegada do Van Helsing (topo da montanha) à conclusão da história da Lucy, meu sono foi varrido para baixo da cama com o delicioso clima de tensão e a constante pergunta “é agora?”, na espera da revelação, que, em um primeiro momento, imaginei assim:

Bella (crepúsculo): sei o que você é. Kid Vampire: heh? Diga. Em voz alta! Bella (crepúsculo): Vampire. Kid Vampire: I'm about to silence this fool

Se você não conhece Kid Vampire, por favor, conheça e aproveite.

Não faria sentido nenhum, mas teria sido muito louco!

Destaco ainda que as participações do Renfield e do Nosso Correspondente foram excelentes. Renfield foi excelentemente louco, e o Nosso Correspondente fez uma reportagem excelentemente divertida no zoológico.

P.P.S[Parte com o que seria um Puta de um Spoiler, clique para liberar]

Você também imaginou e ficou esperando o surgimento de um exército de mini vampiros? Porque assim, imagina… montagem com um exército de kid vampires

Parte 3: Muttley, faça alguma coisa. Pegue esse vampiro, agora!

A terceira parte, no entanto, e infelizmente, começa tão lenta e arrastada quanto termina.

[Voz dos defensores clássicos de clássicos]

Ora, que absurdo! Quem é você para falar mal de um clássico?!

[Minha voz]

Oxê, ainda aqui? Sai, sai, sai… “Sai, Deus é mais, vai morrer pra lá zica.”(Racionais de novo? É, eu tenho mania de escutar a mesma música por um longo tempo)

Tá, tudo bem, existem sim alguns momentos que trazem à tona as emoções tão presentes nas duas primeiras partes, mas, de forma geral, a última parte do livro é uma grande quantidade de reuniões para marcar reuniões — sim, você leu certo —, e longuíssimas valsas ao som vitoriano de “Não gostaria de entrar para tomar uma xícara de café? Feat. Não seria muito incômodo?”, que me lembraram muito desse episódio em particular:

Mas, ei! Que deixemos eles em paz, não? Para quem gosta dessa cafonice, essa parte final é para emoldurar e carregar próxima ao coração.

Ainda que não possa parecer, não foram as cafonices e nem as reuniões para marcar reuniões que mais me incomodaram. O que mais me incomodou foi que a absurda quantidade de poderes atribuídos ao Drácula acabou fazendo com que a “única” forma de fechar a história fosse a utilização de um discurso fraco, que tentou me convencer mais pela repetição incessante nas falas do Van Helsing do que pela argumentação.

Para explicar um pouco melhor, no entanto, precisaremos entrar no…

P.P.P.S[PSPSPS, Gatinho! Spoiler, clique para liberar]

A argumentação pautada no “Cérebro Infantilizado” me soou extremamente infantilizada.

Ao longo de toda a história, o livro tentou me convencer de que Drácula era um ser extremamente poderoso, maligno, astuto e inteligente, que, desde humano, fazia de tudo para exercer seu domínio e impor suas vontades sobre tudo e todos. Muito bem. O livro me convenceu disso, com maestria!, diga-se de passagem. Então, como é que, depois de tudo isso, eu poderia acreditar que Drácula passou centenas e centenas de anos preso em um estágio infantil, no sentido de não conhecer tão bem os seus poderes e os limites desses poderes?

Você poderia argumentar que, pela lógica do imortal, Drácula ainda poderia se desenvolver muito mais como monstro, e é verdade. Mas o estágio em que o livro me fez acreditar que ele estava já era muito mais do que o suficiente para estraçalhar todos os mocinhos da história.

Então, veja, a minha opinião é que o autor fez Drácula tão poderoso que não existia mais uma saída conveniente para o final da história e, nesse sentido, o “Cérebro Infantilizado” veio como um fraco tapa buraco.

Ao estilo Choque de Cultura, vamos ao quadro: É Ruim ou Bom? PUM! Duas vãs batem de frente. Uma super colisão!

Apesar da minha opinião sobre o final, a verdade é que só me dou ao trabalho de escrever o “Resenhando” para livros que me proporcionaram uma leitura prazerosa, porque a minha intenção é de compartilhar o momento com aqueles que já leram e estimular aqueles que não leram a darem uma chance para a obra. Ao meu ver, fazer o oposto disso seria um desserviço, tanto para mim quanto para o livro quanto para você.

Sendo assim, só queria deixar claro que eu realmente gostei de Drácula, e o meu olhar negativo sobre a parte final do livro não diminuiu em nada o prazer enorme que as duas primeiras partes trouxeram; tanto que, ao terminá-las, um dos meus pensamentos foi “poxa, agora entendo o porquê de tanta gente se sentir atraída pela história de um Conde nojento que gosta da coisa mais repulsiva do corpo humano”, entende? Então, não olhe o negativo com um olhar negativo, e diga não ao sangue sem sentir qualquer pressão.

Curiosidade Muito Curiosa

No final da tarde do dia em que finalizei a história da Lucy, levei a dupla de caramelinhas para passear.

Foto da Rafaela e Betina

Betina e Rafaela. Ótimos nomes, eu sei. Me sinto deveras orgulhoso por tê-los escolhidos

Chegando à praça na qual ofereço a liberdade das coleiras e minutos de correria desvairada, demos de cara com um falcão (gavião?) com o pedaço de algum animal no bico, da onde pendiam as tripas rosadas.

A sorte foi que ainda não tinha soltado a coleira, porque a Betina, que tem o tamanho de uma pelúcia pequena, a força de uma criança fraca, a coragem de um leão preso na coleira, e o temperamento de um pinscher maluco, tentou atacar o pássaro, que saiu voando e deixou o resto da presa no chão.

Quando fomos ver o que era, adivinha…? Sim, era o corpo sem cabeça de um morcego!

Pois é. Nós fomos salvos pelo falcão! Gavião…? Enfim, não sei, só sei que fomos salvos pelo pássaro grande porque, obviamente, aquele era a cabeça de um morcego descendente do Drácula… Loucura, não?!

.

Uique Uique Uique, Uiquê! Uiquê!

Uique Uique Uique, Uiquê! (Uhum, Racionais, mesma música)

Haha.

Espero que tenha gostado e, no estilo mummy joe, beeeh!

asssinatura TD Vadilho

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